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Santo · Canonizado em 2018

São Oscar
Romero

"A Voz dos Sem Voz" — O mártir da justiça social

Nascimento 15 de agosto de 1917 · Ciudad Barrios, El Salvador
Falecimento 24 de março de 1980 · San Salvador, El Salvador
Beatificação 23 de maio de 2015 · San Salvador · Francisco
Canonização 14 de outubro de 2018 · Roma · Francisco
Festa litúrgica 24 de março
Padroeiro El Salvador · América Latina · Pobres e perseguidos

"Se me matarem, ressuscitarei no povo salvadorenho."

São Oscar Romero 1941

Infância e Formação — O Sacerdote Conservador

Óscar Arnulfo Romero y Galdámez nasceu em 15 de agosto de 1917 em Ciudad Barrios, uma pequena cidade montanhosa de El Salvador, filho de um telegrafista. Desde menino ajudava o pai no trabalho e tinha vocação evidente para o sacerdócio. Aos 13 anos entrou no seminário menor de San Miguel e, em 1937, foi enviado a Roma para estudar teologia na Pontifícia Universidade Gregoriana.

Foi ordenado padre em 4 de abril de 1942 em Roma, ainda durante a Segunda Guerra Mundial. De volta a El Salvador, trabalhou por décadas como pároco, jornalista católico e secretário da Conferência Episcopal. Era visto como um homem de ordem, intelectualmente sólido, piedoso — mas politicamente cauteloso. Um sacerdote de câmara, não de rua.

Em 1970, foi nomeado bispo auxiliar de San Salvador. Em 1974, bispo de Santiago de María. Nesses anos, El Salvador vivia uma tensão crescente entre uma elite agrária que controlava a terra e as riquezas e uma maioria de camponeses em situação de extrema pobreza. A Igreja estava dividida entre os que apoiavam a ordem estabelecida e os que abraçavam a Teologia da Libertação. Romero era visto como aliado dos primeiros.

A Conversão — O Sangue de Rutilio Grande

Em 22 de fevereiro de 1977, Oscar Romero foi nomeado Arcebispo de San Salvador — para alívio das elites conservadoras, que o viam como um homem seguro. Três semanas depois, tudo mudou.

Em 12 de março de 1977, o Padre Rutilio Grande — jesuíta e amigo pessoal de Romero, que trabalhava com comunidades camponesas — foi assassinado junto a dois leigos numa emboscada a caminho de uma paróquia rural. Era o primeiro padre assassinado em El Salvador no século XX.

Romero foi até o local. Viu o corpo do amigo. E algo nele quebrou — ou, melhor, algo nele nasceu. Passou a noite em oração junto ao cadáver de Rutilio e, quando saiu, era outro homem. Cancelou todas as Missas do país naquele domingo, exceto uma única Missa unificada em frente à Catedral Metropolitana — a primeira grande demonstração pública de que o novo arcebispo não seguiria o script que as elites haviam escrito para ele.

Anos depois, Romero diria: "Quando olhei para Rutilio morto, compreendi o que significa ser padre neste país." A morte do amigo o converteu — não à fé, que sempre tivera, mas ao povo. Foi o momento em que a Igreja deixou de ser para ele uma instituição a ser preservada e passou a ser um povo a ser defendido.

A Voz dos Sem Voz — As Homilias que Paravam El Salvador

Como Arcebispo de San Salvador, Romero tinha acesso à única emissora de rádio nacional que transmitia para o país inteiro. Todas as domingos, suas homilias eram transmitidas ao vivo pela YSAX e paravam literalmente El Salvador — camponeses, trabalhadores, militares, políticos, todos ouviam.

As homilias de Romero tinham uma estrutura única: começavam com a exegese bíblica e terminavam com a leitura dos fatos da semana — mortes, desaparecimentos, torturas, violações de direitos. Ele nomeava os mortos. Nomeava os responsáveis. Nomeava os números. Num país onde a imprensa era controlada e o medo era arma de governo, a voz de Romero no domingo era a única fonte de verdade para milhões de pessoas.

Entre 1977 e 1980, mais de 50 sacerdotes foram ameaçados de morte, vários foram expulsos do país e pelo menos cinco foram assassinados. Romero documentava tudo. Denunciava tudo. E recusava-se a calar.

Em 1979, viajou a Roma para relatar ao Papa João Paulo II a situação de El Salvador. O encontro foi frio — o Vaticano temia que Romero estivesse demasiado associado à Teologia da Libertação. Ele voltou para San Salvador sem o apoio esperado, mas sem recuar um passo.

A Carta ao Presidente Carter — Um Gesto Sem Precedentes

Em 17 de fevereiro de 1980, Romero fez algo sem precedentes na história da Igreja: escreveu uma carta direta ao presidente dos Estados Unidos, Jimmy Carter, pedindo que os EUA suspendessem o envio de ajuda militar ao governo salvadorenho. A carta argumentava que as armas americanas estavam sendo usadas contra o próprio povo de El Salvador.

A carta foi ignorada. A ajuda militar continuou. Mas o gesto marcou Romero como inimigo irreconciliável dos interesses das elites e de seus aliados internacionais. A partir daí, as ameaças de morte se tornaram constantes e explícitas.

O Último Sermão — Uma Ordem aos Soldados

No dia 23 de março de 1980, um domingo, Romero pregou aquela que seria sua última homilia. No final, dirigiu-se diretamente às Forças Armadas salvadorenhas num apelo que foi transmitido para o país inteiro:

"Em nome de Deus e em nome deste povo sofrido, cujos gritos sobem até os Céus cada dia mais tumultuosos, suplico-vos, rogo-vos, ordeno-vos em nome de Deus: Cessai a repressão!"

Era uma ordem de um bispo aos soldados. Uma transgressão das hierarquias seculares que poucos ousariam. No dia seguinte, ele seria assassinado.

O Martírio no Altar

Em 24 de março de 1980, Romero celebrava a Missa na Capela do Hospital da Divina Providência em San Salvador — onde morava desde que havia doado a residência episcopal a um grupo de crianças com necessidades especiais. Era uma Missa simples, numa capelinha pequena, para freiras e enfermos.

No momento do Ofertório, enquanto elevava o cálice, um único atirador disparou da porta da chapel. A bala atravessou o coração de Romero. Ele caiu sobre o altar. Morreu poucos minutos depois, aos 62 anos, com o sangue misturado ao vinho consagrado.

O assassinato foi encomendado pelo Major Roberto D'Aubuisson, líder dos esquadrões da morte salvadorenhos, ligado à extrema-direita e a setores das Forças Armadas. O crime nunca foi julgado. D'Aubuisson morreu em 1992 sem ser condenado.

O funeral de Romero, celebrado na Praça da Catedral de San Salvador, foi interrompido por bombas e tiros disparados contra a multidão de mais de 250.000 pessoas. Dezenas morreram pisoteadas ou baleadas. Foi o símbolo perfeito — e horrível — da mensagem que seu assassinato enviava: mesmo morto, Romero causava medo.

O Legado — Profeta da América Latina

Oscar Romero morreu, mas sua voz não. As gravações de suas homilias circularam por toda a América Latina nos anos seguintes, tornando-se material de formação para comunidades de base, movimentos sociais e seminários. Sua figura tornou-se símbolo mundial da defesa dos direitos humanos — independentemente de afiliação religiosa.

Em 1992, quando a guerra civil de El Salvador chegou ao fim com os Acordos de Paz de Chapultepec, o nome de Romero estava em toda parte. A Comissão da Verdade da ONU identificou o Estado como responsável pelo seu assassinato. O processo de beatificação, que havia sido bloqueado por décadas por pressões políticas internas à Igreja, foi finalmente desbloqueado pelo Papa Francisco.

Em 23 de maio de 2015, foi beatificado em San Salvador diante de 250.000 pessoas — o mesmo número que havia comparecido ao seu funeral 35 anos antes. Em 14 de outubro de 2018, foi canonizado pelo Papa Francisco em Roma, junto a Paulo VI.

São Oscar Romero não é apenas um mártir de El Salvador. É o mártir da América Latina do século XX — o homem que mostrou que a fé cristã, levada a sério, tem consequências políticas inevitáveis. Que defender os pobres não é ideologia — é Evangelho. E que a Cruz não é metáfora.

Linha do Tempo

62 anos de vida — da montanha de Ciudad Barrios ao altar onde foi assassinado

15 Ago 1917

Nascimento em Ciudad Barrios

Nasce Óscar Arnulfo Romero y Galdámez em família humilde numa cidade montanhosa de El Salvador.

1937 – 1942

Estudos em Roma

Enviado à Pontifícia Universidade Gregoriana em Roma. Ordenado padre em 4 de abril de 1942, durante a Segunda Guerra Mundial.

1942 – 1977

Décadas de formação

Trabalha como pároco, jornalista católico e secretário da Conferência Episcopal. É visto como sacerdote conservador e homem de ordem.

22 Fev 1977

Nomeado Arcebispo

É nomeado Arcebispo de San Salvador para alívio das elites conservadoras, que o viam como homem seguro e previsível.

12 Mar 1977

Assassinato de Rutilio Grande

Seu amigo jesuíta é assassinado numa emboscada. Romero passa a noite junto ao cadáver em oração — e emerge transformado.

1977 – 1980

As homilias que paravam El Salvador

Suas homilias dominicais transmitidas pela rádio YSAX tornam-se a única fonte de verdade para milhões de salvadorenhos sob repressão.

17 Fev 1980

Carta ao presidente Carter

Escreve diretamente ao presidente dos EUA pedindo a suspensão da ajuda militar ao governo salvadorenho. A carta é ignorada.

23 Mar 1980

O último sermão

"Cessai a repressão!" — ordena diretamente aos soldados salvadorenhos numa homilia transmitida para o país inteiro. Seria a última.

24 Mar 1980

Martírio no altar

Assassinado com um tiro no coração enquanto celebrava a Missa na Capela do Hospital da Divina Providência. Tinha 62 anos.

14 Out 2018

Canonização

Canonizado pelo Papa Francisco em Roma junto a Paulo VI. Reconhecido oficialmente como mártir da fé e da justiça.

Milagres Aprovados

Os prodígios reconhecidos pela Igreja para sua beatificação e canonização

01

El Salvador

Cura de gestante com complicações graves

Uma mulher salvadorenha grávida desenvolveu complicações gravíssimas consideradas fatais pelos médicos, colocando em risco sua vida e a do bebê. Após intensa oração pela intercessão de Oscar Romero, ambos se recuperaram completamente de forma inexplicável pela medicina. O caso foi investigado e reconhecido pelo Vaticano, habilitando a beatificação em 2015.

Aprovado em 2014 · para a Beatificação

02

Costa Rica

Cura inexplicável de doença neurológica grave

Um homem costarriquenho sofria de doença neurológica severa sem perspectiva de melhora. Após orações pela intercessão de Oscar Romero, recuperou-se completamente de forma que os médicos não conseguiram explicar. O caso foi investigado e aprovado pelo Dicastério para as Causas dos Santos, habilitando a canonização em 2018.

Aprovado em 2017 · para a Canonização

Galeria

Imagens da vida de São Oscar Romero

São Oscar Romero
Oscar Romero 1979
Romero com João Paulo II
Romero em Roma
Oscar Romero jovem

Imagens utilizadas sob licença de seus respectivos autores. Créditos completos disponíveis aqui.

Fontes e Referências

Documentação utilizada para a elaboração deste perfil

Site Oficial

romerotrust.org.uk

The Romero Trust — arquivo oficial de documentos, homilias e fotografias

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Livro

A Grande Memória — Oscar Romero

James R. Brockman · Editora Loyola, 1995

Impresso
Livro

Romero — O Mártir de El Salvador

Marie Dennis · Editora Paulus, 2000

Impresso
Documento

Carta ao Presidente Jimmy Carter · 17 de fevereiro de 1980

Oscar Romero · Arquidiocese de San Salvador

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Vatican News

Canonização de Oscar Romero — Homilia do Papa Francisco

Santa Sé · 14 de outubro de 2018

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Oração por Intercessão de São Oscar Romero

Senhor Jesus, Tu que no Evangelho declarastes bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça, concede-nos, pela intercessão de São Oscar Romero, a coragem de dizer a verdade quando o silêncio é mais seguro e a fidelidade ao Evangelho quando ela tem um preço.

Ele começou como homem de ordem e foi convertido pelo sangue de um amigo. Aprendeu que a fé não é ornamento da sociedade — é seu julgamento. Que defender os pobres não é política — é obediência ao Deus que se fez pobre. E pagou com a vida a coerência entre o que pregava e o que vivia.

São Oscar Romero, voz dos sem voz e mártir da América Latina, intercede por todos os que hoje sofrem opressão, por todos os que arriscam a vida para dizer a verdade e por todos os que buscam em Cristo a força para não recuar. Que nunca nos falte a coragem que a ti não faltou. Amém.

· Para uso privado · Aprovação eclesiástica recomendada ·